Há matas que, depois de um incêndio, parecem ter perdido até o ruído. O que resta são troncos enegrecidos, terra exposta, grama queimada, aquele cheiro seco que surge quando o fogo já terminou seu trabalho e o homem fica com a parte lenta: colocar algo de volta no lugar do que desapareceu. No Chile, neste cenário difícil, a resposta também veio de três Border collie carregando pequenas mochilas cheias de sementes.
Seus nomes eram Das, Olivia e Summer. Três cães habituados a correr, a correr, a mudar de direcção, a ler o terreno com aquela precisão nervosa típica da raça. Na região de Maule, no centro do Chile, eles eram usados para atravessar áreas afetadas pelos incêndios de 2017, carregando nos ombros sacos destinados a deixar cair sementes enquanto corriam. Sementes de árvores nativas, ervas e flores, espalhadas no chão queimado com um gesto simples, quase infantil, mas muito concreto.
A corrida depois do incêndio
A ideia funciona porque muitas vezes o cachorro chega onde o homem avança lentamente. Um Border Collie atravessa encostas, clareiras, áreas irregulares, restos de vegetação, terra quebrada. Vai rápido, volta, começa de novo. Nessas corridas, as sementes caem das mochilas e vão parar no solo, em diversos locais, sem a rigidez da semeadura por mesa. A parte mais bonita, talvez, esteja justamente nesta imperfeição: a natureza raramente funciona em fila única.
O projeto nasceu com um objetivo específico: incentivar a volta da vegetação e, com ela, criar melhores condições para os animais que fugiram das chamas. Depois de um incêndio, na verdade, o problema também diz respeito ao abrigo, à alimentação, à sombra e à continuidade do habitat. Uma floresta queimada perde estrutura. Para reconstruí-lo é preciso tempo, espécies adequadas, chuva, cuidados e uma boa dose de paciência. Os cães, nesta história, tornam-se uma ajuda ágil dentro de um processo muito maior.
Mochilas, sementes e pernas
O detalhe das mochilas deu a volta ao mundo porque parece algo saído de um conto de fadas ecológico escrito por alguém com uma queda por animais. E em vez disso houve formação, logística, sementes compradas e preparadas, fornecimentos contínuos. Os cães correram e depois voltaram para receber guloseimas e novas sacolas para carregar. Nenhuma varinha mágica, nenhuma boa cena de cartão postal para limpar a consciência: apenas um sistema astuto e inteligente, construído explorando uma característica natural dos Border Collies, ou seja, a energia quase ofensiva com que conseguem se mover por longos trechos.
O ponto delicado sempre diz respeito à palavra “reflorestamento”. Espalhar sementes ajuda, mas uma floresta só volta de verdade quando as plantas certas criam raízes, quando o solo aguenta, quando as espécies nativas encontram espaço, quando a área é acompanhada ao longo do tempo. Os cães podem acelerar parte do trabalho, cobrir áreas difíceis, distribuir potencial biodiversidade. O resto é feito pelas estações, pela manutenção, pela qualidade do solo, da água e daquela teimosia que certas plantas têm quando decidem viver.
Uma ideia que fez o seu caminho
A história chilena também inspirou experiências mais recentes. No Reino Unido, em Lewes, East Sussex, alguns cães estiveram envolvidos num projeto de rewilding urbano: mochilas cheias de sementes de plantas florestais e passeios dentro de uma reserva natural, com a ideia de imitar, em pequena escala, a dispersão que outrora foi favorecida também pelos animais selvagens em movimento. Aí a referência era diferente, mais ligada aos prados, orlas florestais e à biodiversidade urbana, mas o princípio manteve-se semelhante: utilizar o movimento dos animais para transportar sementes onde a mão humana teria mais dificuldade em chegar.
A força desta imagem reside na sua concretude. Um cachorro corre. Uma mochila se move. As sementes caem. Depois de meses, talvez, algo surja. No meio está tudo o que muitas vezes esquecemos quando falamos de meio ambiente: a reconstrução exige gestos repetidos, ferramentas simples, cuidado teimoso. Mesmo uma ideia terna tem que sujar as patas nas cinzas, caso contrário, é apenas um vídeo fofo para compartilhar.
Fonte: A Clínica
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